A tarde em Salvador (BA) parecia seguir o ritmo pulsante da cidade antiga. No Pelourinho, onde turistas disputam espaço com vendedores que sustentam a própria vida entre barracas improvisadas, uma cena cortou a harmonia. Gisele Madrid Spencer Cesar, 50 anos, gaúcha de Pelotas, caminhava pelas ruas coloridas quando se aproximou de uma comerciante que vendia bebidas para quem buscava sombra e refresco. A conversa rápida virou tensão, a tensão virou insulto e os insultos se transformaram em violência verbal e física. Testemunhas relatam que a comerciante foi ofendida com palavras marcadas pela cor da pele e pela herança de um país que insiste em repetir seus fantasmas. A agressão culminou em um cuspe que rompeu qualquer aparência de civilidade. Quem estava por perto não teve dúvida. A polícia foi chamada. A detenção aconteceu ali mesmo. A tarde seguiu, mas com um incômodo difícil de dispersar, como se algo muito antigo tivesse sido novamente acordado.
A investigação levou Gisele para a Delegacia Especializada de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa. Ali, diante de uma equipe formada para acolher vítimas de discriminação, ela protagonizou um gesto que amplia o significado do próprio crime. Exigiu ser atendida por um delegado de pele branca. A cena carregava uma ironia quase surreal. Dentro de uma unidade criada para enfrentar práticas racistas, uma mulher recém presa por injúria racial tentava impor o imaginário que alimenta a desigualdade no país. A expressão desse pedido, dentro do local que deveria representar ruptura com essa lógica, diz mais sobre o Brasil do que muitos relatórios oficiais.
A polícia confirmou o pedido discriminatório. A informação repercutiu rapidamente. A justiça, no entanto, decidiu pela liberdade provisória. Na letra da lei, não há contradição. Na vida social, há um abismo. O Brasil que tipifica injúria racial de modo mais rigoroso é o mesmo país que garante saídas processuais a quem comete a violência. Essa tensão se tornou visível no caso de Gisele, porque expôs o que o direito penal muitas vezes tenta equilibrar sem sucesso.
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